E@D (em situação de confinamento)

No final das duas semanas sem atividades letivas presenciais no ensino básico e secundário em Portugal, devido à COVID-19 e ao “estado de emergência”, o Ministério da Educação (ME) produziu e divulgou o roteiro com os “8 Princípios Orientadores para a Implementação do Ensino a Distância (E@D) nas Escolas”. Depois de uma apreciação ponderada e no contexto da situação excecional que todos vivemos, no âmbito deste espaço digital, destaco:

  • A demora em produzir orientações, as quais deveriam ter sido acauteladas nos primeiros dias sem escola, mesmo que mais sintéticas; pelo que, pese embora alguma descoordenação em alguns casos por excesso de zelo, os professores assumiram, uma vez mais e de modo profissional (se não haveria o movimento das forças de bloqueio à Educação, que os fazedores de opinião tinham feito questão de ampliar) a tomada de decisão para a melhor forma de gerir as duas semanas finais do 2.º período, procurando chegar a todos os alunos, dentro do que estava ao seu alcance. Todos precisavam pois de orientações! Mas as que chegaram podem considerar-se ainda algo vagas, como as que a seguir se transcrevem: “Um plano de E@D poderá conter as seguintes etapas: Modelo de ensino a distância”; “Para apoiarem os docentes, os coordenadores devem demonstrar confiança no seu trabalho em curso, bem como transmitir tranquilidade e disponibilidade para esclarecimentos”; “Promover a interajuda entre professores”; e “5.1. As metodologias de ensino desenvolvidas no E@D devem ser apelativas e mobilizadoras dos alunos para a ação”. Outros também pensam desta forma, como de pode ler nesta notícia do jornal Público.
  • Existem outros aspetos apontados a este roteiro que se podem considerar menos positivos; um deles é não considerar assimetrias e desiguais acessos a redes digitais e respetivo(s) equipamento(s), como tem sido destacado, incluindo na comunicação social, como por exemplo no artigo com o título: Ministério não acautela alunos sem Internet no seu novo Plano de Ensino à Distância. Claro que se está a pensar em outros meios para colmatar tal, como o do uso da televisão. Mas o tempo da tele-escola tem de ser o atual e deve ser ponderado bem o que, quando, com quem e como se vai também usar a TV! Que amanhã, como tem sido anunciado, sejam tomadas decisões fundamentadas sobre o 3ª período!
  • Importa, tal como outros já avançaram (por exemplo S. Castilho – “Tocata para um ministro à distância”) que se passe à ação e com medidas concretas antes de começar o 3º período. No quadro da autonomia das escolas e dos professores propõe-se que sejam efetivamente respondidas as seguintes questões concretas: Como se vai organizar o horário letivo dos alunos? 45-50min, ou o dobro conforme os casos, de cada disciplina online e/ou na TV? Ou o “modelo de E@D” a decidir pelas escolas poderá alterar a carga horária do currículo? Que recursos educativos, incluindo digitais, além do manual escolar e fichas dos professores, usar que sejam validados e com investigação educacional de suporte (não basta só fazer listas intermináveis para os professores, no site do ME)? Que garantias existem, na maioria das plataformas digitais, de respeito pela proteção de dados e privacidade, nomeadamente de menores online? … Algumas respostas podem ser encontradas na investigação de vários centros de investigação em educação, como o CIDTFF ao qual pertenço ou por investigadores nesta área, como o que está em: https://www.ffms.pt/conferencias/detalhe/4455/o-pais-que-se-segueepisodio-4 ;
  • O estudo publicado e divulgado (por exemplo no Jornal Expresso: Alguns estão mais ansiosos, outros agitados mas a maioria dos pais não nota alterações no comportamento dos filhos durante a quarentena) refere alguns dados que podem ser importantes para o 3º período, caso se mantenha a situação, como tudo indica:  cerca de metade (53%) dos pais ou encarregados de educação não tem notado alterações de comportamento dos seus educandos e uma larga maioria de cerca de dois terços dos alunos (64,7%) já manifestou o desejo de regressar à escola, logo que possível. Mas sem vacina ou cura o distanciamento social vai continuar e a possibilidade de haver escola presencial será diminuta, pois com 28 a 26 alunos por turma em espaço confinados como muitas das salas de aula, especialmente do Ensino Básico, seria um risco enorme, como também outros defendem (ver: https://www.publico.pt/2020/04/06/impar/opiniao/nao-terceiro-periodo-presencial-1911117)
  • Já escrevi aqui e reitero: As mudanças na educação são lentas! Mas, neste momento, e sem querer alongar a todos os aspetos que importa ponderar sobre este assunto existe, nas partilhas de práticas realizadas e exemplos de E@D do site do ME, uma grande preocupação com o ensino, mas também pouca atenção com a qualidade das aprendizagem dos alunos. Não é só necessário pensar nos meios e atividades e estratégias de ensino a usar, mas também no papel do alunos nesse processo e nas competências a promover intencionalmente com o E@D. Só com um papel mais ativo, diversificado nas tarefas a realizar e não repetitivas dos estudantes é que se aumentam as probabilidades de aprendizagens mais ancoradas e duradouras.

Claro que defendo que este seria o momento ideal para se promover também e assumidamente o Pensamento Crítico, nomeadamente as capacidades de avaliação da credibilidade da informação com que atualmente se é confrontado, também exponencialmente. É isso que se tem defendido, como por exemplo, na última conferência / sessão que fizemos também de E@D: “Pensamento Crítico em tempo de Pandemia: Estratégias para evitar a desinformação”(https://www.ua.pt/pt/noticias/4/62923). Naturalmente que artigos e publicações sobre este tópico podem ser consultados em posts abaixo neste blogue e no menu Publicações.

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