24 março, 2021 | 10h00 | Videoconferência

Realizam-se no dia 24 de março, pelas 10h00, por videoconferência, as provas do Programa Doutoral em Educação de Ângelo Eduardo Rodrigues Ferreira, com o título “Escola, identidade e resistência em Timor. O caso do externato de São José durante a ocupação indonésia”.

Ângelo Ferreira é orientado pelos investigadores António Neto Mendes (CIDTFF, Departamento de Educação e Psicologia, Universidade de Aveiro, Portugal) e Onésimo Teotónio Almeida (Universidade de Brown, EUA).

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Breve resumo:

Durante 24 anos, os timorenses resistiram à ocupação indonésia, tendo reconquistado a sua independência três após o referendo de 1999, sob os auspícios da ONU. Além da comprovada violência física e psicológica, o regime indonésio proibiu o uso da língua portuguesa e desencadeou um esforço maciço para indonesiar a sociedade timorense, em particular através do sistema educativo e da imposição da língua indonésia em todos os domínios. A exceção foi o Externato de São José (ESJ), uma escola que funcionou, a partir de 1976, em língua portuguesa, contra as orientações oficiais indonésias, até ser encerrada em 1992.

O desígnio desta investigação consistiu em saber que escola foi o ESJ, qual o seu propósito (ainda que não declarado) e qual a inter-repercussão escola-sociedade, à luz do contexto histórico e do quadro metodológico e teórico estabelecidos, percebendo ainda que contributos ela deu para a preservação e afirmação de uma identidade timorense distintiva, assim como para a conquista da independência de Timor-Leste.

Neste estudo de caso, realizou-se a análise de conteúdo de documentos da e sobre a escola, assim como de protocolos de transcrição integral de trinta entrevistas semiestruturadas (de um total de sessenta) a antigos professores, antigos estudantes e membros da sociedade que foram observadores privilegiados da sua ação (um Prémio Nobel, um Presidente da República de Timor-Leste, um Primeiro-ministro, vários ministros, dois reitores, deputados, empresários, até dois agentes dos serviços secretos indonésios).

Os resultados evidenciam, entre outros, que o ESJ teve uma liderança visionária e inspiradora, concretizando um projeto educativo de qualidade, que mereceu forte adesão da comunidade escolar; o propósito central consistiu na defesa e promoção da língua portuguesa e de uma cultura mista (luso-timorense) como marcas distintivas da identidade timorense; os membros da comunidade escolar tiveram importância capital na luta pela independência do país; a escola teve ainda grande impacte na formação de cidadãos e profissionais timorenses, na edificação do estado-nação, e foi crucial para manter a língua portuguesa viva em Timor-Leste. Mas a escola também sofreu impacte da sociedade, que foi fazendo as adaptações necessárias para sobreviver, até ser encerrada pelas autoridades, com base na implicação de alunos e professores em ações consideradas subversivas contra o estado indonésio.