Entrevista a Artur Fino

MUA – É reconhecido por ser um artista de tendência abstracionista. Dentro dessa linguagem artística assume uma dualidade geométrica que lhe é tão fiel e um expressionismo como o que nos apresenta em obras de 2013. Reconhece ter arriscado durante a sua carreira outros géneros artísticos?

AF – Lembro-me de pintar retratos com 12 anos. Aliás ainda tenho o retrato do meu pai, pintado a óleo, tinha eu 14 anos. Mas essa minha fase figurativa desapareceu antes dos 20 anos. Cedo descobri que, para mim, já não fazia sentido fazer “cópias”! Considero que o figurativo impõe limites, quer à imaginação quer à criatividade, é pouco construtivo. O abstracionismo, pelo contrário, não tem limite porque recria sempre uma solução única, espontânea, possível.

MUA – Mais de 60 anos dedicado às artes plásticas fazem de si um mestre nos domínios do experimentalismo. Assim é considerado no “Livro de Ouro de Arte Contemporânea em Portugal”. Fale-nos um pouco do seu percurso artístico.

AF – Gosto acima de tudo de estar a criar sempre para melhorar. Por isso tento experimentar ideias novas e recuso ceder ao mero figurativo e à tendência do “copiável”. Sou sobretudo um autodidata. Aprendi com a vida, observando, lendo, viajando. É claro que depois conheci grandes artistas, entre os quais os amigos Jeremias e o Hélder Bandarra, o Gaspar Albino, o Vasco Branco ou o Júlio Resende. Aprendemos sempre uns com os outros. Estudei e lecionei disciplinas de arte, nomeadamente das áreas da História e da Percepção Visual. Recebi prémios e até me compararam com Antoni Tápies, veja lá! (riso). Mas acredite que, ao tempo, nem conhecia a obra deste catalão, por isso era improvável que eu fosse influenciado por ele!

MUA – Considera ter rotinas de trabalho que o façam desenvolver processos criativos?

AF – As artes plásticas acompanharam a minha vida da adolescência e essa realidade continua até hoje. E ainda todos os dias trabalho, no meu atelier, em Aveiro. Faço esboços, experiências e, muitas vezes, guardo-os de lado. Depois um dia volto a pegar neles e desenvolvo-os. É assim que trabalho. Gosto de trabalhar com texturas e elementos plásticos, porque a pintura não é só tinta e pincéis! A minha experiência em escultura e cerâmica ajudaram-me na introdução e aplicação de novos materiais. É certo que utilizo muito o acrílico pois como gosto de trabalhar grandes superfícies convém que o resultado final seque rapidamente. Além de que pintar em grande é para mim uma forma de expressão na qual eu me revejo! (pausa) Também gosto de pintar a óleo … mas este tem o inconveniente de demorar muito a secar.

MUA – A pintura marcou a sua vida e deu-lhe projeção nacional. Evidencia-se também uma vida dedicada a outras manifestações culturais como o teatro e o desporto. Homem dos sete ofícios como conseguiu aliar a sua carreira de artista plástico à sua vida do dia-a-dia?

AF – É verdade que apesar de começar a trabalhar com 14 anos na fábrica de Cerâmica Faianças de S. Roque, aqui em Aveiro, como escriturário, sempre conseguia ter um tempinho para desenhar e pintar. Fazia retratos nessa altura. Depois por volta dos 18 anos deixei-me disso, já não me dava gozo. Passei a descobrir e desenvolver o abstrato. Mais tarde fui trabalhar como chefe de vendas de cervejas ligada à empresa SAGRES e por lá fiquei até  me reformar, após 42 anos de serviços. É para dizer que uma vida! (riso)

Entretanto meti-me no teatro e entrei para o CETA, devia eu ter cerca de 30 anos. Foram 20 anos a fazer um pouco de tudo. Entre cenógrafo, carpinteiro, encenador, ator, não houve nada que não me passasse pelas mãos e olhe que naquela época não era nada fácil! Os textos eram passados a pente fino pela censura. Algumas das minhas peças não passaram, com grande pena minha…

Meu irmão e minha irmã também estiveram ambos ligados á arte de representar e o meu irmão até trabalhou no teatro D. Maria, em Lisboa. Posso dizer que em casa todos temos uma tendência natural para a representação! (pausa)

Foi também no CETA que trabalhei com o meu amigo Jeremias Bandarra…

Quanto ao desporto também variei um pouco. Fui jogador federado e treinador de basquete e fiz parte de uma equipa de remo de competição dos Galitos o meu clube de sempre!

 MUA – Artur Fino atinge, enquanto artista plástico, a sua fase mais etérea de sempre. As suas obras mais recentes apresentadas na exposição “4 Fundadores expõem” assim o evidenciam. Concorda?

AF – Nesta exposição quis levar as pessoas a conhecerem as várias perspectivas da arte contemporâneas, os vários “Artures Finos”. Apresento trabalhos que diferem entre si mas que não consigo dissociar por fases, elas foram surgindo naturalmente. Sei que sou um experimentalista por natureza e sobretudo um abstracionista. Por exemplo, gosto muito do geométrico! As formas geométricas tornam a composição mais rigorosa, mais limpa. Aqui, por exemplo (aponta para duas imagens publicadas no “Livro de Ouro de Arte Contemporânea em Portugal”), fiz obras com base na sobreposição de texturas rugosas. Gosto do efeito de robustez e volume matérico. Os trabalhos que apresento de 2013 são mais plásticos, mais expressivos, mais poéticos e sobretudo de menores dimensões, particularmente por questões financeiras! Os tempos estão difíceis e vende-se pouco. Tive de reduzir nos materiais… Ainda que o meu objetivo não seja o fator material-financeiro, mas sim o de produzir arte e nada mais!

MUA – Foi um dos fundadores do Grupo AVEIROArte. Reconhece ter esta associação promovido o seu trabalho?

AF – Eu já pintava antes de 1971, ano em que foi fundado o Grupo AVEIROArte e já tinha inaugurado a minha primeira exposição individual. Mas reconheço que esta associação foi importante porque acima de tudo consistia num movimento de vanguarda de artistas da região de Aveiro que ansiavam por novas propostas estéticas. Organizámos muitas exposições coletivas dentro e fora de Portugal. Algumas individuais que fiz foram apoiadas pela associação.

Também o Grupo AVEIROArte apoiou artistas novos, antes completamente desconhecidos.

MUA – Artur fino é um artista que surpreende pela criatividade renovada. Após um percurso repleto de inquietações artísticas, de prémios e consagrações o que é que ainda o apaixona?

AF – Gosto de pintar em grandes superfícies, por exemplo, acho que pintar um mural seria uma experiência que me daria um prazer enorme. Já me ocorreu uma situação semelhante no Jumbo, em que pintei as paredes do segundo piso de acesso ao estacionamento. Para mim pintar em grande permite-me entrar na obra, é nessa dimensão que me revejo, que melhor trabalho. Por isso sinto-me bem a trabalhar sobre telas, ou equivalente, com superfícies de razoáveis envergadura.

 MUA – É atualmente uma das figuras mais populares de Aveiro, quer pela sua obra, quer pela sua dedicação ao teatro, quer pelo seu carisma. Como gostaria um dia que o recordassem?

AF – Houve quem dissesse que eu era um espírito inquieto. Vasco Branco, meu amigo, até brincava dizendo que tinha uma lua tresloucada com imensas fases prenhas de talento. Mas na realidade gostaria que se lembrassem de mim como alguém que obstinadamente recusou-se à estagnação. Alguém que gostava de melhorar sempre, experimentar sempre, inovar, criar, sim criar…

“Artista controverso” (pausa) é assim que quero que me recordem.

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